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sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

FIC...Kiss Yesterday Goodbye CAP 2


Capítulo II


A neve já caía intermitente, quando Priscila deixou o hospital, que tinha sido doado por seu avô paterno à Universidade de Twin Rivers. Atravessou todo o parque e passou pela frente dos escritórios da Stanford, em direção ao centro da cidade.
Tinha visto e falado com o pai ainda por mais duas vezes. Na última delas, já à beira da exaustão e sob influência daquela atmos­fera desoladora, fora aconselhada pelo próprio Richard a ir para casa e repousar. Era admirável como, mesmo nas condições em que se encontrava, ele se preocupava mais com ela que consigo mesmo.
Prih havia passado a tarde inteira pensando nas palavras do Dr. Grantham. Tudo o que ele dissera era mesmo verdade, e isso a esta­va atingindo profundamente. De fato, só conseguia lembrar-se da extrema atenção que o pai lhe dedicara durante toda a sua infância. Ele jamais lhe faltara. Mas isto era motivo suficiente para fazê-la ficar o inverno inteiro, enquanto aguardava seu restabelecimento? O coração pedia que ficasse. Havia sofrido com a ausência do pai na­queles cinco anos, e agora ele a queria perto de si. O trabalho pode­ria esperar e quanto a Brian ele iria entender, afinal, nada havia de definitivo entre eles. Rosemary sem dúvida iria reclamar, mas aca­baria aceitando.
O que realmente a amedrontava era ter de viver sob o mesmo teto que Nick, durante o tempo que ali permanecesse, Priscila admitiu, enfim. As brigas seriam inevitáveis e o máximo que conseguiriam seria estabelecer uma trégua para não perturbar Richard. Mesmo assim, iria ser muito difícil um clima de entendimento entre eles porque ela jamais daria a Nick a satisfação de dirigir sua vida. Só estava ali pelo pai, apesar de que, a bem da verdade, aquela casa pertencia-lhe muito mais que a ele.
— Prih! Prih!
Ela se voltou e viu uma moça morena que a alcançava, empur­rando um carrinho de bebê!
— Com esses cabelos Castanhos, eu sabia que só podia ser você!
— Alisam! — exclamou Priscila, surpresa. — Você ainda está mo­rando aqui?
— Sim, meus planos de estrela da Broadway tiveram uma peque­na mudança quando me apaixonei e acabei me casando. — Ela levantou o nariz, gracejando. — E sabe com quem? Com um dos seus antigos namorados: AJ Mclean.
Prih olhou para a criança que estava dentro do carrinho.
— E este deve ser o pequeno Alex!
— Não. É a pequena Molly. Você tem tempo para tomarmos um café? Estive fazendo compras a tarde toda. Estou cansada e louca para saber das novidades!
— Sim, vamos. Só que não poderei demorar muito.
— Você voltou a Twin Rivers para ficar, não? — Alison pergun­tou ansiosa pela confirmação.
— Apenas por alguns dias. . .
— Na verdade, pensei que você nunca mais voltaria a esta cidade.
— Eu não pretendia mesmo voltar. Porém, com a doença de papai, foi necessário. Mas você, mesmo assim, poderia ter me con­vidado para o casamento. Como pôde casar-se com meu melhor namorado e não me avisar?
— Eu perderia qualquer chance de me casar se ele mudasse de idéia na última hora. E apenas uma olhadinha para você, e adeus casamento. . .
As duas amigas riram, descontraídas.
— Mudando de assunto, como está seu pai, Prih?
— Ele me pareceu muito abatido, mas o Dr. Grantham garantiu-me que se recuperará.
— Todo o pessoal da Twin Rivers Bakeries está preocupado com ele. AJ disse-me que, ontem mesmo, fizeram uma lista para mandar flores a seu pai em nome de todos os empregados.
— AJ também trabalha lá?
— Sim, ele é gerente do pessoal. Trabalha junto com Steve Whitman.
— Eu conheci Steve. E quem é o auxiliar de Nick?
— O próprio Steve. E você, Prih, o que faz?
— Faço uma espécie de Relações Públicas e de Propaganda. É um trabalho muito interessante.
— Tão interessante que já lhe deu oportunidade de se casar. Ou não?
— Não, não pensei nisso por enquanto.
— Oh, Prih, estou desapontada. Lembra-se de que havíamos com­binado que eu seria uma segunda Sara Bernhardt no cinema e você uma secretária executiva da Casa Branca? E quanto às centenas de belos cavalheiros que nos rodeariam? Não há, realmente, nenhum?
— Ah, sim, Alison, um aqui, outro ali. Nada de sério.
— Então está explicado. Você está esperando por alguém espe­cial. Talvez até já o conheça, mas não sabe ainda quem é. . .
Nesse momento a pequena Molly começou a chorar, e Alison, sem conseguir acalentá-la, despediu-se.
— É uma pena, mas agora não vai dar mais para saber dos deta­lhes da sua vida sentimental! O dever de mãe me chama! Mas pro­meto me comunicar com você para fazermos algum programa. Não pense que vai esconder de mim o caso com o homem maravilhoso que a está perturbando...
— Como pode estar tão certa de que existe um homem?
— Porque você nunca conseguiu ficar sem um. . .
Despediram-se com um beijo, e Alison afastou-se com a criança, que ainda chorava.
Priscila permaneceu sentada por mais algum tempo, lembrando-se de sua adolescência, quando ela e Alison tinham sido amigas, troca­do confidências e feito a relação dos rapazes mais interessantes da cidade. Havia sido bom reencontrá-la. Pena que ficaria tão pouco tempo na cidade e que decerto não se falariam mais.
Saiu do café e caminhou em direção ao hotel onde tinha deixado as malas e feito reserva. O frio estava ainda mais cortante, e, ao procurar o capuz para proteger a cabeça, não o encontrou. Pensou em voltar para ver se o havia perdido no caminho, quando se lem­brou de que Nick, perto do lago, tirara-o de sua cabeça e não o devolvera. Bem, ela compraria outro. Não iria dar-se ao trabalho de pedi-lo de volta. Se era isso que ele queria, ia ficar desapontado.
Ao chegar ao hotel, pediu a chave do quarto. O recepcionista, desconcertado, respondeu:
— Mas a senhorita cancelou a reserva. . .
— Estou mais do que certa de que não fiz isso, senhor...
— Mas suas malas até já foram retiradas e sua conta paga!
Respirando fundo, como se de súbito houvesse compreendido o que tinha ocorrido, Priscila perguntou:
— Não foi Nickolas Carter quem tomou essas providências?
— Sim, Srta. Stanford. Foi ele mesmo. Ele disse. . .
Priscila não estava nem um pouco interessada em saber o que Nick tinha dito ou deixado de dizer.
Bem, pelo menos ele deixou meu carro, ou o levou também?
— Não, senhorita, não levou. Seu carro está em nosso estaciona­mento.
— Obrigada — disse, virando as costas.
Dirigindo rumo à casa dos Stanford, Prih olhava sem nenhuma emoção a bela estrada que margeava um dos rios da cidade. Ao longe, avistava o telhado da casa que a havia abrigado até os dezessete anos. Em outras circunstâncias teria se emocionado até as lágri­mas. Mas agora, com todo aquele peso no coração por causa do pai e apreensiva diante da expectativa do convívio com Nick, era como se nada lhe dissesse respeito.
Estacionou na frente da casa e, antes mesmo de apertar a cam­painha, foi paralisada repentinamente pela voz de Nick:
— Ela não é Miss América. Disto tenho certeza. Não sei por que mamãe insistiu em chamá-la. Provavelmente, ela vai provocar outro ataque cardíaco em Richard!
Não podendo resistir, Prih abriu a porta e o interrompeu:
— Provavelmente porque quem está morrendo numa cama de hospital é o meu pai, e não o seu. — Frisou muito bem as palavras.
Nick a olhou, desconcertado, mas continuou, voltando-se para a governanta como se nada houvesse acontecido.
— Bem, como eu estava dizendo, Muriel, não sei o que mamãe pensa que a Moreninha pode fazer por aqui.
— Se você acha que minha presença é tão desnecessária, por que não me deixou no hotel? Eu estaria perfeitamente bem lá.
— Por causa das aparências. Mamãe não queria dizer a Richard que a filha pródiga não havia voltado à casa ao final de tudo.
— Bem, devolva então minha bagagem e eu terei o maior prazer em sair daqui. E não se preocupe. Direi a papai que a idéia foi minha e não de sua digníssima família.
Olhando-a com malícia e jogando amendoins para Finnegan, Nick respondeu:
— Quanta abnegação! Só que a mim você não engana. Está aqui por sua parte na herança e sei que ficará perto dela para ver se ainda está inteira.
— Cale-se. Você fala como se eu fosse um abutre!
— E não é?
A governanta, que havia se mantido calada, finalmente os interrompeu:
— Agora chega vocês dois. Eu pensava que, com o tempo, vocês iam crescer e parar com essas brigas tolas, mas já vi que não. Se não se calarem, serei obrigada a lhes dar algumas palmadas, como se fossem crianças. — E completou: — Nick, Richard não morreu. Portanto, pare com essa conversa sem sentido. E você, Priscila, venha comer alguma coisa.
Nick, em silêncio, retirou-se e Muriel, voltando-se para Prih, a repreendeu:
— Menina, da próxima vez que a vir mencionando qualquer coisa desagradável quanto a Margaret, como esse negócio de "sua digníssima família", vou passar-lhe sabão na boca. Ofenda Nick, se quiser. Vocês dois se merecem. Mas não sua mãe. Ela nunca fez nada que a magoasse.
— Eu não queria ficar nessa casa. . .
— Não, mas vai — Muriel disse categoricamente. — E que esta seja a última vez que diz qualquer coisa sem pensar. — Depois amaciou a voz: — Prih, se você está aqui contra sua vontade, Nick também não está satisfeito. Mas ficar brigando não vai levar a nada e vocês terão que se suportar até Richard ficar melhor. Então, não é melhor fazerem as pazes por algum tempo?
— Foi ele quem começou tudo...
— Priscila, deixe de criancice! Falarei com ele também. Agora, suba, tome seu banho, e venha jantar antes que a comida fique fria.
— Oh, Muriel! Até parece que ainda tenho dez anos!
— É mais ou menos isso mesmo! — respondeu a governanta sorrindo.
Prih subiu as escadas acarpetadas em direção ao seu antigo quarto, lembrando de como Muriel sempre a cercara de amor. As recordações que tinha de sua infância traziam sempre Muriel e não sua mãe.
O quarto estava exatamente como ela o deixara. As paredes pinta­das de verde, a cama coberta com mantas e já preparada para a noite, as cortinas puxadas para as laterais das janelas, deixando ver uma parte da cidade. Nada havia sido mudado. Até seus vestidos continuavam nos cabides.
Priscila sentiu-se tão leve que não teve vontade nem mesmo de abrir as malas. Usaria uma de suas antigas roupas. De quem teria sido a idéia de manter tudo daquele jeito? De Muriel ou de Margaret?
Já estava enrolada em um roupão, pronta para o banho, quando alguém bateu na porta. Era Margaret.
— Como você ficou bonita depois de crescida, Prih! — disse ela, com uma voz tão doce que deu à enteada a impressão de que era realmente bem-vinda a casa. — Eu estava saindo para ir ao hospital, mas queria te ver antes!
Margaret usava um terninho vermelho que destacava ainda mais seus cabelos grisalhos. Como sempre, estava tão bem penteada como se tivesse acabado de sair do cabeleireiro. Apenas pareceu menor ainda a Priscila. O passar dos anos a teria tornado mais frágil ou Prih a estava vendo agora com outros olhos?
"Muriel estava com toda a razão", pensou Prih. "Margaret sem­pre tentou manter um bom relacionamento comigo. Eu é que fui uma adolescente que teimava em não aceitá-la..."
Margaret sorriu e estendeu a mão a Priscila, mostrando receio quanto à maneira com que seria recebida. Priscila, surpreendendo-se, teve vontade de beijá-la, e beijou.
— Estou tão contente que tenha vindo querida! Você não ima­gina o quanto queria tê-la conosco outra vez!
— Não sei se poderei ajudar em alguma coisa. . .
— A sua presença é a maior ajuda que poderíamos esperar!
— Quer que eu vá com você? — perguntou Priscila, ansiosa por se fazer útil.
— Oh, não! Obrigada, querida. Não vou ficar lá a noite toda. E você está parecendo tão cansada. Durma bem e, se quiser, passe a parte da manhã com seu pai, certo?
— Tem razão. Estou mesmo cansada. Foi uma longa viagem. Mas papai me pareceu tão mal! Estou angustiada por ele.
— Tudo o que poderíamos fazer está sendo feito, Prih. Bem, preciso ir. Até amanhã.
Margaret já estava na porta quando se voltou.
— Prih, querida, é muito importante para eu tê-la de volta. E para Richard também, é claro.
Priscila percebeu que Margaret, cautelosamente, tinha deixado de mencionar a opinião de Nick.
'"Tudo bem", pensou, "vou fazer de conta que ele não existe e espero que faça o mesmo em relação a mim".
Logo que Margaret saiu, tomou seu banho e vestiu-se para o jantar. Contrariando o costume da família, decidiu-se por uma velha blusa e uma calça comprida, ao invés dos vestidos sociais usados para a noite. Imaginou que acabaria jantando sozinha. Mas se Nick estivesse presente certamente ficaria chocado com seus trajes.
Pouco depois, após descer as escadas, encontrou Nick esperando por ela na sala. Surpreendeu-se ao vê-lo vestido de maneira muito mais à vontade ainda do que ela. Mas não disse nada.
— Quer beber alguma coisa? — perguntou ele. — Ou ainda está na fase da adolescência e proibida de beber?
Priscila estava decidida a não lhe dar chances de discussão.
— Se tiver um Martini, aceito. Obrigada.
Nick olhou-a de lado e a serviu com um meio sorriso. Não resistindo à curiosidade, ela perguntou:
 — A alta sociedade daqui usa trajes como o seu para as gran­des ocasiões?
— Não, querida. Esquecemos de lhe dizer, mas não costuma­mos mais nos vestir de modo especial para os jantares de casa. É um hábito muito dispendioso e só mantido pelos "novos-ricos".
— Se isso é uma censura a Rosemary. . .
— Não, morena, é uma censura a você.
— Gostaria que você não me chamasse de morena.
— Oh, desculpe-me. Mas é inevitável. Cada vez que a olho, mais se reforça a idéia.
Prih sentou-se e, para disfarçar a tensão que a invadia, colo­cou o copo sobre a mesa e pôs-se a observar os quadros das pa­redes. De repente, ao voltar-se, viu que Finnegan tinha derrubado todo o seu Martini e o lambia com avidez.
— Me esqueci de avisar. Não deixe qualquer bebida perto de Finnegan. Ele é o "alcoólatra da família".
— Agradeço o aviso. Aliás, este cachorro não tem outros ví­cios? Gosta só de beber?
— Claro. Foi assim que ele ganhou o nome que tem. No dia em que eu o trouxe para casa, seu pai estava bebendo um uísque com soda e quando se distraiu Finnegan tomou-o todo. Então Richard passou a chamá-lo de Finnegan's Wake. Aquele da canção irlandesa.
Prih lembrou-se de seu pai cantando a canção que Nick men­cionara, e sentiu o coração apertar-se. Como se tivesse adivinhado seus sentimentos, Nick procurou distraí-la:
— Bem, vamos jantar. Será uma pena deixar a comida de Mu­riel esfriar. Você se incomoda se jantarmos na cozinha mesmo? A sala de jantar parece inadequada para uma refeição rápida.
— Por mim, tudo bem. — Ela não queria lhe dar motivos para mencionar novamente Rosemary e suas manias de grandeza. Sem dúvida, ele a estava testando.
— Você já decidiu até quando vai ficar? — perguntou ele, no tom mais casual possível.
— Ainda não. Mas papai não quer que eu vá.
— Talvez seu serviço não lhe permita ficar muito tempo.
— Ficarei até que papai esteja fora de perigo.
— É claro, dinheiro não é problema, não? Com a fortuna de sua mãe, trabalhar é um hobby para você — ironizou Nick, enquanto olhava fixamente o anel de brilhante que Prih trazia no dedo.
Prih havia acompanhado a direção de seus olhos.
— É verdadeiro, se é o que você quer saber. Foi presente de aniversário. E se você está tentando me irritar, Nick, perde seu tempo. Vou ficar aqui o tempo que quiser, com ou sem sua per­missão.
Nick não respondeu e Prih sentiu-se vitoriosa. Aquela era sua primeira vitória sobre ele. Provavelmente porque ele estava espe­rando lidar com a mesma garota de cinco anos antes e não com a mulher de agora, que sabia como manejar os homens.
Depois dessa descoberta, o bolo de queijo que Muriel deixara para a sobremesa ficou até mais gostoso. Terminado o jantar, Nick colocou um disco no aparelho de som e veio sentar-se perto dela.
— Uma cena familiar quase perfeita — falou em tom de ironia.
— Você nunca fez parte da família, Nick. Você foi apenas um acidente!
— Oh, Prih! Seu jeito não melhorou nada com os anos. . .
— Não sou vinho que melhora de sabor com o tempo. E, se me recordo bem, você disse certa vez que eu era atraente.
— Você se refere ao último Natal que passou conosco? Era apenas o seu corpo, e não a sua inteligência que eu mencionava.
— Obrigada mesmo assim. Meu ego agradece. . .
— Às ordens. Aliás, eu ficaria muito feliz em poder comprovar se a impressão que tive era verdadeira. . .
— Que você quer dizer com isso?
— Que você, como toda adolescente tolinha, me provocou e depois tirou o corpo fora.
— Quer dizer que eu era provocante?
— Você sabe que sim. Todas as adolescentes são. E olhe que não me refiro às roupas que costumam usar, ou deixam de usar. . .
— As roupas que eu estava usando naquele Natal eram roupas comuns, e mesmo o episódio não teve nada de muito especial.
— Na verdade, refiro-me às roupas que não usava. . . Sutiãs, por exemplo. E quanto ao que aconteceu se foi tão pouco impor­tante, assim, por que nós dois lembramos ele?
— Provavelmente porque foi algo muito desagradável!
— Tenho certeza de que você gostou. Quer que faça uma de­monstração para avivar-lhe a memória?
— Não, obrigada. Se eu quiser ser maltratada, vou ao zoológico e procuro um urso cinzento para trocar carícias.
— Que espécie de homens você conheceu nos últimos cinco anos, Priscila?
— Nenhum do seu tipo, graças a Deus!
— Talvez seja verdade, Prih. Mas poderíamos esquecer tudo e começar de novo. Seu corpo continua muito apetitoso. — Olhou-a de maneira provocante. — Eu poderia até esquecer este seu gênio infernal!
— Por acaso já se olhou no espelho, Nick? E por que diabos você acha que me atrai? — Priscila levantou-se, furiosa.
— Por isto — Nick respondeu baixinho e beijou-a, enquanto a puxava de volta ao sofá.
Sua boca era quente, gentil e se movimentava sensualmente sobre a dela. Abriu-lhe os lábios com a língua e atingiu a parte sensível de sua boca. Depois, cobriu-lhe a face e o contorno das orelhas com demorados beijos.
Com esforço, Priscila mantinha-se impassível. Conseguia não reagir apesar de tudo. E supunha que aquela atitude o deixaria louco. Se ele queria provar que era irresistível, estava perdendo tempo. Por fim, afastou-o com uma expressão enfadada.
— Desculpe-me, mas você não vai conseguir nada. Eu não tenho mais dezessete anos. Deixe-me subir, sim?
— Qual é o problema, Prih? Há pouco você me insultou dizen­do que nunca fiz parte da família, agora, quando a beijo, age como se eu estivesse cometendo um crime!
— Há muitos homens que não têm nada a ver com minha famí­lia e que eu não quero beijar! — ela argumentou.
Sua voz soou trêmula. As mãos de Nick acariciavam-lhe o pes­coço, espalhando lassidão por todo o seu corpo. Estava ficando extremamente difícil continuar se fazendo de objeto inerte.
Nick sorriu:
— Estou certo de que diz a verdade. Você não reage mesmo como uma mulher normal! — Detendo uma das mãos um pouco acima de seus seios, ironizou: — Que foi Prih? Seu coração está batendo disparado! E esta veia está pulando! Está com medo de que eu a beije novamente? Ou que não?
Ela se soltou, aparentando uma calma que não sentia.
— Vou para a cama. Estou cansada.
— Está fugindo de novo? Oh, Morena querida, precisa parar com isso. Nunca pensei que você fosse covarde. . .
Priscila subiu as escadas e fechou à chave a porta de seu quarto. Respirava com dificuldade. Sem dúvida, as coisas seriam muito mais difíceis do que imaginara.
Havia se esquecido de que Nick jamais entregava os pontos sem lutar e que usava todas as armas de que dispusesse leais ou não. A sua simples presença já era uma ameaça à segurança dele na empresa e ela podia esperar tudo em se tratando de Nickolas Carter.
"Bem, Prih, agora você já conhece o plano de ataque dele. Fique preparada que vai ser fácil se controlar", ela disse para si mesma.
Belas palavras! Mas ela conseguiria se controlar? Priscila não enten­dia por que um homem de quem não gostava, ou melhor, odiava, conseguia ter aquele poder sobre ela.
Fechou os olhos e se lembrou daquele fatídico Natal de cinco anos antes. Nick tinha então vinte e dois anos. Estava em casa passando dez dias de suas férias escolares. Na manhã de sua partida, tinham tido mais uma discussão e ela fora para o quarto e não quisera descer para se despedir.
Como ela teimara em não sair do quarto, Nick entrara com jeito de quem queria fazer as pazes, perguntando se ela não lhe daria nem um beijo de despedida. Priscila não respondera. Agia como se não houvesse ninguém além dela naquele aposento. Afinal, por que agora ele lhe dava a face para beijar? Nos cinco anos que viveram na mesma casa, podia contar nos dedos às vezes em que a tinha beijado.
Diante da atitude de Priscila, Nick ficara irritado e, como para mostrar que era mais forte do que ela jogara-a contra a cama, prendera-lhe os braços e as pernas sob o corpo, e tentara beijá-la no rosto.
Mas ela se debatia e; em certo momento, seus lábios se tocaram. Tudo acontecera muito rápido, mas Prih ficara vermelha e emba­raçada, e ele, dominado por uma excitação violenta.
Nick, então, relaxara a pressão do corpo sobre ela, e, ao voltar-se, seus olhos se encontraram. Ela perdera toda a noção de bom senso e, dessa vez, seus lábios se procuraram.
"Aquele beijo foi bem diferente do outro...", Prih pensou, sentindo-se culpada. Ela ainda podia sentir a temperatura de seu corpo aumentar com a lembrança dos carinhos dele. E poderiam ter passado do estágio de um beijo se Richard e Margaret não estivessem subindo as escadas.
O que aconteceu depois, não conseguia se lembrar muito bem. Sabia apenas que tinha ficado quase histérica de medo. Não dele, mas por causa do desejo que sentia crescer dentro de si.
Depois disso, nunca mais o vira. Ele deixou suas habituais visitas de fim de semana e passou as férias seguintes com amigos.
Nick ainda não havia voltado a casa quando ela se foi, após a discussão com o pai. Agora, Priscila tinha que admitir, ela só não voltara porque sabia que as férias de Nick estavam próximas e que ele as passaria em Twin Rivers.
"Ele estava certo", pensou Prih. Aquele episódio a tinha mar­cado profundamente. Mas era natural que se lembrasse dele porque se sentira culpada. Nada mais.
Agora, certa de que Nick não a queria em Twin Rivers por ameaçar a segurança dele na empresa, iria explorar aquele ponto fraco de sua armadura. Mas ele não teria também descoberto sua fraqueza?

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

FIC...Kiss Yesterday Goodbye CAP 1

Capítulo I


O céu estava carregado de nuvens cinzentas que prometiam trazer neve antes do nascer do sol. O vento soprava forte, balançando os galhos das árvores, e um redemoinho levava para longe as folhas secas. Mas Priscila, absorta em seus próprios pensamentos, caminhava sem prestar nenhuma atenção àquele cenário de pleno inverno. As mãos enluvadas estavam enfiadas nos bolsos do casaco, e um gorro de lã protegia-lhe a cabeça.
Chutou uma pedrinha na água e ficou observando os desenhos concêntricos que se sucediam. Ao passar por um arbusto, um pato selvagem voou assustado dali para o lago, onde mergulhou desa­jeitadamente.
Caminhar à beira do lago e olhar os patos não era, de forma alguma, o melhor passatempo para uma manhã de dezembro. Mas pareceu a Priscila muito melhor do que ficar sentada na sala de espera do hospital, aguardando a hora de ver seu pai. E, além disso, depois de ter dirigido durante mais de oito horas, sentar-se, mesmo que por pouco tempo, estava entre as últimas coisas que gostaria de fazer.
Era ainda noite quando chegou à cidade e foi direto ao hospital. Porém, devido ao estado grave de saúde em que o pai se encontrava, só lhe permitiam visitas em horários prefixados. Insistiu com as enfermeiras para vê-lo imediatamente, mas não lhe abriram exceção. Como último recurso, havia procurado a enfermeira-chefe, que entretanto manteve a mesma orientação das anteriores:
— Sinto muito, Srta. Stanford, mas as normas do hospital são feitas para o bem dos pacientes. Até mesmo sua mãe tem obedecido aos horários das visitas.
— Suponho que a senhora esteja se referindo à minha madrasta — corrigira-a Priscila.
— Refiro-me a Sra. Stanford... . E quanto à senhorita, pode voltar às sete horas. Não antes disso.
Diante da inflexibilidade da enfermeira, tivera que se conformar.
E agora ali estava ela, no parque da cidade, ansiosa para que o tempo passasse o mais rapidamente possível.
— Quer alguns pedaços de pão?
A pergunta inesperada assustou-a; não havia imaginado encontrar alguém naquele local, àquela hora. Voltou-se para ver quem tinha falado.
Era um rapaz bastante simpático, com alguns flocos de neve sobre os cabelos loiros.
— É para os patos — acrescentou ele.
Prih enfiou a mão no pacote que o jovem lhe estendia e, atirando migalhas à água, falou:
— Obrigada. Há muito tempo não faço isso. Me faz lembrar da minha infância, meu pai...
— Dentro de pouco tempo não teremos mais este prazer. O lago se congelará e os patos irão embora para não morrer com o frio. Na realidade, temos que agradecer-lhes por ainda estarem aqui.
— É verdade, mas eles não têm outra saída. Às vezes eu também gostaria de fugir. Emigrar como estes patos. Buscar calor, verde e beleza em outros mundos. — Sorriu, arrependida por haver divaga­do. — Oh! Desculpe-me. Normalmente não sou tão sentimental.
— Não se preocupe. Faz de conta que não vi, nem ouvi nada. Você é nova por aqui, não?
— Não exatamente. Nasci aqui, mas faz cinco anos que não venho a Twin Rivers.
Enquanto falava, a cena da última discussão com o pai voltou-lhe à mente. Preocupada, Priscila imaginou o que faria se naquele momento ele estivesse morrendo no hospital. Mas afastou a idéia, horrorizada.
— Você vai ficar aqui por muito tempo?
— Só alguns dias — respondeu.
Havia previsto ficar apenas o tempo suficiente para se certificar de que o pai estivesse fora de perigo, nada mais que isso.
— Você não escolheu uma época muito agradável para essa visita!
Prih sorriu.
— Eu gosto do inverno. Sinto-me bem com o frio.
— Então teve sorte, porque aqui é o lugar mais frio que já vi, principalmente em fevereiro.
— Não consigo me lembrar de você. Não nasceu aqui, nasceu?
— Oh, ainda não me apresentei. Meu nome é Steve Whitman Sou do Arizona e pretendo voltar para lá algum dia. Estou trabalhando como assistente da diretoria da Twin Rivers Bakeries. É uma das maiores indústrias daqui.
Essa não e a empresa que pertencia aos Stanford? Não sabia que tinha sido vendida.
E não foi. Richard Stanford continua a controlá-la, embora uma nova diretoria tenha sido formada há pouco. Quando o novo diretor assumiu, decidiu mudar o nome da empresa, que passou a chamar-se Twin Rivers Bakeries, ao invés de Stanford Bakeries.
Esse novo diretor chama-se Nickolas Gene Carter?
Sim. Você conhece Nick?
Se o conheço? Ele vem tentando tornar-se dono das indústrias Stanford durante os últimos dez anos. . .
Repentinamente um cão surgiu correndo por trás de Priscila e, rosnando furioso, jogou-a contra um banco. Tudo aconteceu numa fração de segundo.
— Você está bem? Consegue levantar-se? — perguntou Steve, preocupado.
Priscila, sacudindo a cabeça para pôr as idéias em ordem e tentar entender o que tinha acontecido, perguntou:
— O que foi isso?
— Este cachorro estúpido! — E arrastou o animal pela coleira. — Se ele tivesse vindo com mais ímpeto, teria jogado você não sobre o banco, mas dentro do lago!
Steve voltou-se para o homem loiro que acompanhava o cão: era Nick Carter.
— Eu já lhe havia dito que mataria esse cachorro se o visse atacando alguém de novo! Agora, ele quase jogou a moça dentro do lago. . .
— Steve, você sabe que Finnegan jamais ataca alguém de pro­pósito — respondeu ele, abaixando-se ao lado de Priscila e agradando o cão, que, como para se desculpar, lambia o calcanhar dela e balançava o rabo longo e peludo.
— Bem, morena, eu sabia que um dia a veria tombada sobre um banco...
— E você coloca toda a culpa em mim, não? Sim, tem razão, ponha a culpa em mim. . . Isso é do seu feitio, Nickolas Carter. De fato, fui eu que mandei esse cachorro pular em mim mesma!
— Você não quer acrescentar mais alguma coisa sobre meu baixo caráter e instinto animal, como sempre fazia?
— Não exatamente. Mas sobre esse animal endiabrado, sim... . Ele é seu, não?
— Claro que é! Finnegan não é lá muito inteligente, mas é uma ótima companhia quando não está caçando coelhos ou jogando pessoas no chão. — Nick respondeu com um tom de sarcasmo na voz, e o cão, como se tivesse percebido a intenção do dono, abanou com maior inten­sidade o rabo, roçando-o nas pernas de Prih.
Enfurecida, ela se dirigiu ao cão:
— Não pense que estou gostando, seu danado! Sabe o que penso? Você é um imbecil de quatro patas e a culpa é desse seu dono que não sabe educá-lo!
Nick irônico interveio:
— Falando assim, ele até vai pensar que você é do tipo de gente que respeita os animais e suas limitações...
— Você está sendo desagradável de propósito ou a grosseria é agora um traço de seu caráter, Nick Carter? — continuou ela asperamente. — Onde está aquele seu cavalheirismo?
Os olhos dele brilharam de leve e a voz adquiriu um tom insi­nuante.
— Quer mesmo saber, morena?
— Não me chame assim.
— Por que não? Por acaso você mudou a cor dos seus cabelos?
Enquanto falava, puxou o gorro da cabeça de Prih, deixando à vista os longos cabelos castanhos. E dirigindo-se a Steve perguntou:
— E vocês dois, acaso já se conheciam? Steve tome cuidado. Em­bora engane muito bem, moreninha não é, de maneira alguma, uma Lady.
Steve, que não estava entendendo nada daquela conversa agressiva entre os dois, resolveu arriscar:
— Ela é sua irmã?
— Só ADOTIVA — corrigiu Nick, frisando bem as palavras.
— Muito obrigada — disse Prih com ironia. — Assim você me poupa o vexame de alguém supor que entre nós haja algum laço de sangue!
— Foi mesmo uma péssima idéia que nossos pais tiveram de se casar pela segunda vez na idade deles, nos obrigando a nos adotarmos como irmãos!
— Ora, não me parece que para você tenha sido assim tão ruim!Pelo que sei você está se saindo muito bem. . .
Nick percebeu de imediato a insinuação de Priscila: ele só teria chegado a diretor da empresa porque sua mãe havia feito aquele casamento, caso contrário, não passaria, jamais, de um empregado qualquer.
— Você gosta de provocação não, morena? — E, sem esperar resposta, virou-se para Steve, decidido: — Acompanharei Priscila ao hospital. Enquanto isso, Steve, tome as providências necessárias para o andamento do serviço no dia de hoje. Imagino que tenha vindo ver seu pai, não, morena? Ou veio apenas para os funerais?
— Como tem coragem de dizer isso, Nick? Meu pai está muito mal numa UTI, e você vem fazer brincadeiras de mau gosto?
— Mas foi muito conveniente para você esquecê-lo durante os últimos cinco anos, não?
Despediu-se de Steve que, após um olhar zangado para seu chefe, dirigiu-se a Priscila:
— Srta. Até quando pretende ficar na cidade?
— Ainda não sei... Nick interrompeu:
— Sem dúvida, até Richard estar melhor, ou ser enterrado.
Seguiram caminhando lado a lado, acompanhados pelo cão. Prih esperou até que Steve não pudesse mais ouvi-los.
— Você tem sempre que discutir nossos problemas diante de estranhos, não?
— Não pensei que você se incomodasse com isso. . .
— E quanto à minha permanência ou não aqui, Nick, isso só diz respeito a mim. A ninguém mais, você compreende? Ficarei o tempo que bem desejar. . .
— Você está sendo muito precipitada ao interpretar meus mo­tivos, morena. . .
— Meu nome não é morena, Nick. Isso é coisa do pas­sado.
— Desculpe, é à força do hábito! Veja Priscila, eu, pessoal­mente, acho que mamãe jamais deveria tê-la chamado e. ...
— Por quê? Para que eu não viesse reclamar a herança que você sempre desejou que fosse toda sua?
— Ah, então foi por isso que você veio! Queria saber se sua parte estava salva...
Prih, irritada, enfiou as mãos nos bolsos, para não esbofe­teá-lo...
— Absolutamente! A herança não me interessa. Não se esqueça de que estou de relações cortadas com meu pai. . .
— Não acredito. Voltou tão logo viu a oportunidade de colocar as mãos no dinheiro. . .
— Pois saiba que penso a mesma coisa sobre sua permanência aqui... Armou um esquema perfeito: abandonou sua carreira de químico, e, todo cheio de bons sentimentos, resolveu ajudá-lo na fábrica de doces... Comovente!
— Engana-se, pequena Prih! Só deixei minha carreira porque, após o primeiro ataque do coração, seu pai não estava mais em con­dições de continuar dirigindo pessoalmente a produção...
— Primeiro ataque? Então ele já teve outros? — Ela se descon­certou, sentindo um calafrio.
— Calma Prih. Não precisa se apavorar. Ele teve um ataque mais fraco, se é que se pode dizer assim. . .
Já estavam diante do hospital, e Prih não conseguia esconder a ansiedade que a dominava.
— Há mais alguma coisa que eu deva saber sobre a saúde de papai?
— Não. Mamãe o avisou de que você estava vindo. Não vai ser um grande choque para ele.
— Você não acha que minha presença pode até ser um aconteci­mento agradável?
— Talvez seja. Mas nem todos os eventos agradáveis são bons para os doentes do coração. Lembre-se disso, morena. Nenhuma cena, certo? — E, afastando-se com seu inseparável cão, avisou: — O jantar é às sete horas.
— E quem lhe disse que devo me subordinar aos seus horários?
— Nesse caso, o jantar será servido à hora que você chegar e der as ordens. Até mais tarde!
— Não, se depender de mim!
Richard Stanford estava estendido naquela cama branca do hospital de lowa, com o rosto e os lábios azulados, lutando pela vida. Os tubos de soro fisiológico e de sangue gotejavam ininterruptamente em suas veias, tornando-o aos olhos de Priscila o mais indefeso e fraco dos homens. Seu estômago contraiu-se ante aquela visão.
"Como está velho!", pensou. "Deve estar perto dos sessenta anos!"
— Oi, papai! — disse ela gentilmente, procurando-lhe as mãos entre os lençóis.
— Prih! Sinto tê-la obrigado a fazer esta viagem! — Sua voz era pouco mais que um suspiro.
— Papai. . .
Prih sentia vontade de chorar, de dizer-lhe o quanto havia se preocupado durante aquela viagem, de desculpar-se por aqueles cinco anos de distância e, principalmente, de pedir-lhe que a abra­çasse como o fazia quando ela era criança.
Mas reviu o rosto de Nick, quando lhe dizia: "Nada de cenas, Prih", e a coragem lhe faltou. Apenas apertou com força as mãos do pai entre as suas e se calou.
— Você veio para ficar, não, Prih? Agora sei que você é o melhor remédio que eu poderia ter!
— Isso depende de sua saúde, papai! Você sabe que não poderei ficar por muito tempo. Preciso voltar!
Ela não queria fazer promessas. Tinha medo de não conseguir cumpri-las.
— Apenas alguns dias? E se ficasse até o Natal? — perguntou ele, desapontado.
— Não sei papai. Até lá são duas semanas.
— Ah, sei. Arrumou um namorado e quer voltar o quanto antes?
— Nem que fosse uma dúzia de namorados.
Nesse instante lembrou-se do pedido de casamento que Brian lhe havia feito dias antes. Não lhe havia respondido, mas permanecer em Twin Rivers poderia dar-lhe oportunidade de refletir melhor sobre o assunto. E a ele também.
— É alguém especial, Prih? Vou gostar dele quando conhe­cê-lo? — perguntou Richard, a quem a expressão pensativa de Priscila não escapara.
Ela sorriu.
— Acho que sim, papai! Vocês se darão muito bem! — Mas não sabia ao certo por que dizia aquilo. Afinal, Brian era um jovem executivo de uma grande empresa, que só se interessava por pessoas que lhe pudessem trazer vantagens.
"Sim", Prih pensava, "duas semanas em Twin Rivers me aju­darão, a saber, se amo mesmo Brian ou se apenas estou habituada a tê-lo em minha vida".
O olhar ansioso de Richard, finalmente, a fez decidir-se.
— Sim, papai, acho que ficarei até o Natal. Não posso lhe pro­meter ainda, mas não se preocupe com isso, por favor!
— E seu trabalho, não haverá problemas?
— Não. Como propagandista. Não tenho horários e dias fixos.
— E com quem está morando? Com...
Prih notou que o pai continuava sentindo dificuldade para men­cionar o nome de Rosemary, sua mãe. Ela o abandonara, deixando-lhe a filha para criar. Isso, agora, já fazia mais de vinte anos, mas o tempo não conseguira apagar a mágoa de seu coração.
— Não, papai. Tenho meu próprio apartamento, que divido com algumas colegas de faculdade.
Nisto, uma enfermeira apareceu.
— Srta. Stanford, seus dez minutos terminaram. Richard segurou-lhe as mãos com força.
— Não vá, Prih. Tenho medo de não vê-la outra vez!
— Não posso ficar mais papai. Mas voltarei logo que deixarem. — E retirou-se da sala.
Ao passar pela mesa da enfermeira-chefe, Prih pediu informa­ções sobre o real estado de saúde do pai, e esta a tranqüilizou di­zendo que, dentro de poucos dias, se continuasse a se restabelecer tão bem, já poderia ser transferido para um quarto normal.
— Posso aguardar na sala de espera para falar com o médico? — quis saber Priscila.
— Claro!
Enquanto aguardava, Prih se lembrou da chamada de Margaret na noite anterior. Ela parecera desesperada com a doença de Richard e queria realmente sua presença em Twin Rivers. E quanto a Nick? Ele estava contrariado com sua volta, mas por que, se ele já tinha conseguido o que queria: o controle do império Stanford? Priscila não conseguia entender. Houve um tempo em que ele não era assim tão hostil com ela. Aliás, na última vez em que se viram, antes de sua partida, Nick até a...
Sacudiu a cabeça, tentando expulsá-lo do pensamento. Afinal, ele não era assim tão importante, não fazia nem mesmo parte da família. Mas as lembranças acabaram por dominá-la.
Viu-se aos doze anos, menina mimada a quem o pai se dedicava com abnegação. Lembrou-se de Nick, que já tinha dezessete anos, e do casamento de seus pais. Foi uma época feliz, em que tanto ela quanto Nick tinham os mesmos interesses. Ele a ensinara a esquiar, a dançar e sempre saíam juntos. Mas, alguns anos depois, inexplicavelmente se distanciaram e as constantes discussões em que se em­penhavam tornaram-se a única forma de proximidade de que eram capazes. Havia um permanente clima de desconfiança recíproca; Prih começara a supor que o objetivo de Nick era tornar-se o herdeiro de todos os bens de seu pai. E foi numa discussão a esse respeito que se viram pela última vez, há cinco anos.
— Olá, Prih. Como vai? — Era o Dr. Grantham, o médico da família que tratara dela quando criança, e, agora, cuidava de seu pai.
— Bem, doutor, e o senhor?
— Na mesma vida de sempre... — respondeu, sentando-se ao lado dela. — Mas você mudou muito! Está mais bonita, só que parece abatida. É por causa da preocupação com seu pai?
— Creio que sim. Como está ele, Dr. Grantham? Por favor, diga com franqueza.
— Não temos ainda os resultados dos exames, e sem eles não posso fazer uma previsão exata do tratamento necessário. Foi um ataque cardíaco, mas não conhecemos ainda o grau de comprometi­mento do organismo. Mesmo assim, ele está reagindo bem e pode­rá, talvez, voltar para casa dentro de duas semanas.
— E quanto ao futuro?
— Bem, durante todo o inverno deverá manter-se em absoluto repouso. Suas ginásticas diárias não poderão ser interrompidas, já que é sério candidato a uma obstrução de artéria. — E completou, observando a expressão preocupada de Priscila: — Também não poderá voltar as suas atividades normais na empresa por um longo período, já que não pode se esforçar: foi por isso que nomeou Nick para substituí-lo. Ver Nick dirigindo a empresa a preocupa, não é, Priscila?
— Por que o senhor imagina isso? A empresa será sempre pro­priedade dos Stanford, mesmo com Nick na direção.
— É ainda é propriedade dos Stanford. — Fez um ar de preocupa­do. — Mas tenho certeza de que, se você estivesse aqui, Richard lhe teria dado a direção da firma.
— Eu amo meu pai, doutor. Mas estou certa de que ele não con­fiaria tanto assim em mim.
— Quanto a Nick, posso lhe garantir que ele não forçou nada. E acredito mesmo que Richard poderia ter sido convencido a dei­xá-la tentar, ao menos.
— Dr. Grantham, decididamente, eu nunca teria uma oportuni­dade. Más não é isso que interessa agora. Quero conversar sobre a saúde de meu pai.
— Muito bem. Você veio para ficar, não?
— Apenas por alguns dias. Eu disse a papai que ficaria até o Natal, mas acho que não poderei...
— Mas o que é isso, menina? Seu orgulho é mais importante para você que a vida de seu pai?
Prih contrariou-se.
— O senhor por acaso está tentando me responsabilizar por algo de ruim que aconteça?
— Ê claro que não! Você não teve culpa de ele ter tido um ataque do coração, mas sem dúvida provocou-lhe um grande desgosto quan­do foi embora. E agora vem e lhe dá a certeza de que o ama, de que ainda é a filha que ele adora. — Por fim deixou escapar a cen­sura que ela temia: — Mas cinco anos sem uma palavra, Prih. . . Você foi muito cruel!
— Ele também não me procurou uma única vez — defendeu-se ela, com a voz meio abafada. — E como posso acreditar que ele se preocupava comigo? Afinal, todo mundo sabia que eu estava com minha mãe!
— Era exatamente isso o que mais o atormentava — disse ele num tom de voz seco.
— O senhor não gosta dela, não é doutor?
— Não — ele concordou ríspido. — Penso que essa antipatia tem algo a ver com o fato de que ela só admitia ver você depois que tivesse tomado banho e sido trocada. Mesmo nos seus primeiros dias de vida. . .
Priscila defendeu a mãe:
— Ela tem suas manias. . .
— Manias? Você acha certo. uma mulher abandonar o marido e uma filha de dois anos? Acha? — E abrandando a voz: — Oh, Prih, eu não quero discutir sobre Rosemary. Mas o que é mais importante para você que seu pai? Seu trabalho?
Sem saber o que dizer, ela balançou a cabeça.
— Então você vai ficar?
— Eu não posso...
— Mas precisa. Você é o melhor remédio para ele. É o que ele tem de mais querido, Prih!
— Não é verdade. Ele tem Margaret e Nick. Cuidaram muito bem dele nesses cinco anos!
— É verdade. Mas você é o sangue dele e ele a ama mais que a qualquer outra pessoa. E quanto a Margaret, Richard jamais teria se casado com ela se não estivesse certo de que ela seria uma ótima mãe para você!
— Eu poderia muito bem passar sem ela...
— Poderia mesmo? Tem certeza? — E mudou de assunto. — E seu pai? Vai pensar bem sobre o que lhe disse? Ficará aqui pelo menos até que ele esteja fora de qualquer perigo?
— Sim... Eu...
— Boa garota — disse ele, sorrindo.
— Eu não quis dizer que ficaria doutor. Apenas que pensaria em tudo o que conversamos. . .
O médico, que já havia se levantado, parou bruscamente e voltou-se para Prih.
— Priscila Stanford, se você for tão maldosa a ponto de dar esse desgosto ao homem que a ama mais que ninguém, então não é digna de usar o nome que tem! — E saiu pisando forte, sem se voltar.
Ela permaneceu imóvel por muito tempo, tentando colocar as idéias em ordem.
— Srta. Ashley, seu pai quer vê-la — ouviu a enfermeira chamar.
Prih ainda se deixou ficar pensando nas palavras do médico por mais alguns momentos. Depois se levantou sem pressa e seguiu a enfermeira em direção à Unidade de Terapia Intensiva.